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Douro, lugar de um encontro feliz


Fotografia “Colocação de estacas na quinta da Marka, Gouvinhas” de António Barreto

Fotografar o Douro

Mal chega, um qualquer visitante fica extasiado. A força e a beleza da paisagem são quase excessivas. Antes da contemplação, vem o tormento, pois rapidamente se percebe que tudo foi esforço e trabalho. Mas não são apenas os visitantes que quase têm dificuldade em respirar. O deslumbramento é tal que os Durienses e os Transmontanos, eles próprios, não escondem a permanente surpresa. Em mais de quarenta anos de fotografia, nunca deixei de ir ao Douro buscar imagens. Nem sequer locais conhecidos ou sítios repetidamente vistos em bilhetes-postais, livros e jornais, me deixavam indiferente. Fotografei os vales do Torto e do Pinhão, São Salvador do Mundo e Casal de Loivos, as vinhas e as oliveiras, os socalcos e os mortórios, dezenas de vezes.

Ao preparar um livro ou uma exposição, o grande problema é o da selecção. Felizmente que esta ficou a cargo da minha amiga Ângela Camila Castelo-Branco, que tão bem conhece a minha fotografia. Juntos, tentámos evitar o lugar comum e o cliché, formas menores do espírito e da expressão. Além disso, há algo no Douro, a sua grandeza, que não se consegue transpor para a imagem impressa. Só vendo. Só vivendo. Só ouvindo. Só sentindo. Não é fácil fotografar paisagens pelas quais se tem respeito.

Como também não se consegue, através da imagem inerte, compreender o trabalho que foi necessário para aqui chegar, para construir aquelas montanhas e aqueles socalcos que tão doces parecem! A beleza da paisagem sugere um equilíbrio e uma natureza pacificada que não são reais: são aparência, são o resultado visível de um colossal esforço dispendido e repetido ao longo de séculos. No Douro, a violência parece paz.

How to capture the Douro Valley in photographs

On arrival, visitors are quickly dazzled. The power and beauty of this landscape are nearly excessive. But torment precedes contemplation, as one soon realizes the effort and sweat all this involved. And it’s not just visitors who find it hard to breathe: the people from Douro and Trás-os-Montes themselves are overwhelmed and constantly surprised with the landscape. In over forty years of photography, I’ve never stopped coming to Douro looking for images. Well-known spots and those so often seen in postcards, books and newspapers, even those I couldn’t resist. I’ve taken dozens of pictures of the valleys of Torto and Pinhão, of São Salvador do Mundo and Casal de Loivos, of vineyards and olive trees, terraces and mortórios.

When organizing a book or exhibition, the major issue is what materials to select. Fortunately, I could rely on my friend Ângela Camila Castelo-Branco as a curator, and she knows my photography quite well. Together, we’ve tried to avoid common place and cliché, lesser forms of the spirit and expression. Besides, there is definitely something about the Douro, its greatness, which cannot be captured on printed images. One has to see it. Live it. Hear it. Feel it. It’s never easy to photograph landscapes one reveres.

On the other hand, still imagery fails to show what it took to shape the region, what it took to build such sweet looking terraced mountains! The beauty of the land suggests a balance and a pacified nature which are hardly real: they are apparent, the results of colossal efforts repeated over centuries. In the Douro, violence poses as peace.

António Barreto nasceu no Porto em 1942. Sociólogo, professor universitário e político, foi deputado e membro do governo, assim como colunista de vários jornais. Sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. Prémio Montaigne em 2004. Autor da série de televisão “Portugal, um retrato social” e do documentário “As horas do Douro”. Presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, de 2009 a 2014. Sócio fundador da APPh. (Associação Portuguesa de Photographia). Autor de vários livros, entre os quais “Um Retrato do Douro”, “Douro”, “Fotografias 1967-2010” e “Douro; Rio, Gente e Vinho”.-

António Barreto, créditos Ângela Castelo-Branco

António Barreto, créditos Ângela Castelo-Branco

Ângela Camila Castelo-Branco nasceu em Lourenço Marques, Moçambique, em 1966. É documentalista no Arquivo Histórico da RTP (Rádio Televisão de Portugal). Estudou fotografia no AR.CO (Centro de Arte & Comunicação Visual) de 1993 a 1997. Foi comissária de diversas exposições. Proferiu conferências. Tem publicado vários textos sobre História da Fotografia. Foi responsável pela organização e selecção iconográficas de vários livros. Coleccionadora de fotografias de Portugal e das ex-colónias. Sócia fundadora e membro da Direcção da Associação Portuguesa de Photographia (APPh.).

Ficha técnica

Exposição

Lugar de um Encontro Feliz

Museu do Douro
Terça a Domingo

Coordenação Geral: Fernando Seara

Fotografia: António Barreto (1978 a 2014)

Comissária: Ângela Camila Castelo-Branco

Produção: Andreia Magalhães (coord.), João Tomé Duarte

Impressão fotográfica: António José Costa, Viragem Lab

Todas as fotografias foram impressas em Giclée sobre papel baritado

Fundação Museu do Douro, F.P
Rua Marquês de Pombal
5050-282 Peso da Régua
Tel. +351 254 310 190

geral@museudodouro.pt
www.museudodouro.pt

MOSTEIRO DE SANTA CLARA-A-VELHA (SALA DE EXPOSIÇÕES TEMPORÁRIAS)

Inauguração 11 de Outubro |18h00

De 11 de Outubro a 30 de Novembro

Horário 10h-19h (até 14 de Outubro)
10h-18h (a partir de 15 de Outubro)
Terça a Domingo

Entrada Livre

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