“GARRAFAS”
AUGUSTO BAPTISTA

EXPOSIÇÃO DE DESENHOS


A verdade chega às vezes pela boca de uma garrafa. Boca estreita, boca larga, as garrafas falam, guardam segredo. Contam histórias.

augusto baptista

Museu Nacional de Machado de Castro

Quinta-Feira 18h00 (Inauguração)
Leitura de textos de Augusto Baptista por Rui Damasceno

Até 1 de Novembro

10h00-18h00 | Terça a Domingo

Entrada Livre

POLIEDRO

Chega afogueado pelo galope. Recolhe a montada no estábulo, afaga-lhe o pescoço suado, três pulos galga ao primeiro andar, como se conhecesse o caminho: o corredor, a porta ao fundo. Abre. Na penumbra, sobre a colcha acetinada, uma mulher. Roupa exígua, dispendiosa. E uvas.

Uma cilada!

Voa para a montada, em brasa ainda, e no frenesim da fuga aos paparazzi ouve uma criança, olho azul, que o confere pelo retrovisor, ouve “papá!”. Na agitação mete a primeira, a segunda, e sucessivamente, irrompe aos ziguezagues pela pradaria, perseguido já por manadas de sirenes a piscar e, na confusão, na poeirada, ocorre-lhe se o doutor Mendes lhe andará a dar as pastilhas certas. Ou se o narrador, que vagamente conheceu no restaurante, se terá excedido. No Campolargo.

REPASTO DE FOGO

– Uma vez por outra não virá daí mal ao mundo, dizia-lhe uma voz. Em contraponto, outra, a voz do médico, alertava para os perigos da destemperança: – Cuidado, o ácido úrico pode disparar para valores incendiários!

Nesta tensão, venceu a gula. Filado no cozido, rumou ao restaurante.

Empanturrou-se. Desbundou no chouriço, no paio, no presunto, no pernil. Repetiu a orelheira. Encharcou-se de cerveja, copos de tinto, aguardente.

Quando enfim, feito nababo, deu por finda a refeição, sentiu calores a alçarem-se pelos pés. Sensação de labaredas a treparem-lhe pelas pernas, pelo corpo. Arrotou. E quedou-se no aconchego do borralho, consolado, mãos na barriga sobre a zona do umbigo. A turrar.

Às tantas, do soalho soltou-se uma leve fumaça cinza, depois uma língua de fogo azul, nascida do charuto que largara sob a mesa. Molengão, olho fechado, com a sola do sapato domava já o incidente, justo quando se apercebe tudo em chamas lá por baixo. O ácido úrico! O ácido úrico em valores incendiários! foi o que lhe veio à cabeça. Não cuidando de supor fogo à rédea solta, nascido no andar de baixo.

O RAIO

Tarde quente, copos, chega a casa com a boca em labaredas.

Conta da electricidade, doença da mãe, renda atrasada, despedimento, a mulher espera-o no cimo das escadas, insuflada de explosivos humores.

Fugaz, mero hábito, um beijo.

O comandante dos bombeiros, entre os escombros do imenso quarteirão a fumegar, matuta: Que raio terá provocado esta hecatombe?

DIÁLOGOS URBANOS II

Chega cedo, restaurante vazio. Escolhe um lugar de canto, vai-se sentando. O empregado logo acode, a amparar o velho.

Acomodado, inquire sobre o almoço.

– Sopinha? – arrisca o empregado.

– Pode ser.

– E um peixinho cozido, com arrozinho branco?

– Pode ser.

– E para beber, Pedras, Luso? Uma garrafinha? – o empregado, a tomar nota.

– Pode ser. Pode ser uma garrafinha… Maduro tinto.

DIÁLOGOS URBANOS VI

– Já leu esta notícia sobre o consumo de álcool?

Não li, não leio. Estou a tomar antibióticos.

PIROLITO

Senhor de um invejável império, o velho magnata estava preso à vida por um desejo: beber um pirolito de garrafa com bolinha, como os havia na sua meninice.

Inteirado do desejo do pai, o filho moveu influências, correu mundo, pôs anúncios nos jornais, nas revistas, nas televisões, não parou enquanto não conseguiu proporcionar a morte que o progenitor ansiava. E, deste modo altruísta, alcançar a vida desafogada que há tanto tempo lhe fugia.

TRADUÇÃO COMPETENTE

Entra no tasco a abarrotar de gente, de cá, de fora: trolhas, doutores, poetas, turistas, pedreiros, prosadores, malabaristas, escrivães, actores, reformados, taxistas.

Sem surpresa, no meio da salgalhada, ele mesmo acaba por se descobrir no canto ao fundo, em amena cavaqueira consigo próprio, tradução competente de um jarro maduro tinto, assessorado por um bolinho de bacalhau.

in lacrima, Augusto Baptista, Outubro 2019, edições gatopardo

Augusto Baptista

créditos Augusto Baptista.

Oliveira de Azeméis – cruza escritas: texto, fotografia, desenho.

Livros publicados, alguns títulos: lacrima, o homem que, Gente do Porto, Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias, O caçador de luas, Elucidário oblíquo do reino dos bichos, Floripes negra, O lobo mau no hospital (desenhos Z.L. Darocha, design João Bicker), O medo não podia ter tudo (com Francisco Duarte Mangas), ENIgMATÓgRAFO, OPUS 4, Garrafas, Tangram cats, Tangram art, Tangram design, Tangram-humanas figurações, A explicação dos gatos - com figuras de tangram.

Fotojornalismo. Fotografia de cena: sobre o percurso da companhia A Escola da Noite, Coimbra, e as actividades da Cena Lusófona - Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral, Coimbra.

Exposições: individuais, colectivas. Entre outras: “No palco nos entendemos” (Centro Cultural de São Paulo, 1998) e “As cores do Teatro” (itinerante na lusofonia), produzidas pela Cena Lusófona; “Vinte rostos dois mil anos” (itinerante em Portugal), Inatel; “Um rosto de carnaval”, Luanda, Ass. 25 de Abril, 2011; “Esta terra”, ampliações nas ruas do Espinhal/Coimbra, Razões Poéticas, 2012.

Instalação/espectáculo o homem que, direcção de António Augusto Barros, A Escola da Noite, 2019.

Sócio fundador e da direcção da Cena Lusófona; da direcção da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Sócio fundador da ARCA (Oliveira de Azeméis), do CE.DO – Centro de Estudos do Deserto (Namibe, Angola), da Associação 25 de Abril (Luanda, Angola).

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